Escrever, para mim, sempre foi um ato de viver. Algumas pessoas gostam do ato de viver jogando futebol, outras gostam de dirigir, ainda tem os que gostam de cinema, passear, bom, creio que aqui já se percebe que o ato de viver e fazer algo que te dá um prazer, que te faz um sentido de que viver é bom e nesta visão, minha alma, meu espírito, ambos são voltados para escrever.
Houve um período na minha vida, eu estava no fim da adolescência, hoje em dia é qualquer idade entre 15 e 35 anos de idade, mas no meu tempo o fim era perto dos 18 anos, quando todos já esperavam que se tivesse uma profissão ou no mínimo em um curso técnico - faculdade era uma outra história -.um e já estivesse pensando em namorar sério; bom eram outros tempos. Neste período que comecei a escrever, eu saía do trabalho, ia para a escola - estava acabando o ensino médio - e voltava para casa; o pessoal geralmente já estava dormindo, era o meu período de paz, quando ninguém ia falar comigo, então eu ia para a cozinha, pegava uma ou duas velas e usando copos de vidro como castiçais, apagava a luz da cozinha e sobre a mesa de refeições eu escrevia, algumas vezes cartas, outras vezes histórias.
Não sou espírita para falar de reencarnações, mas acredito em algo mais natural, na memória ancestral, lembranças que ficam gravadas em nosso código genético e que de tempos em tempos se manifesta em alguma geração. Sempre penso nisto quando recordo o período que descrevi acima. Eu me sentia como um monge copista em algum convento dedicado a preservar a cultura e logicamente, a Bíblia.
Na verdade, não foram tais religiosos os únicos a serem copistas, antes deles existiam os escribas egípcios, mesopotâmicos, judeus, gregos e romanos; na época medieval tinha notários e escrivães, além dos copistas profissionais, mas nenhuma imagem me emociona tanto quanto a do monge copista, dedicado a escrever e escrever além das rotinas de trabalho e oração do mosteiro; não devia ser uma vida fácil.
Tenho esta forte impressão, de que em meu código genético está gravado a memória de algum monge copista ou de alguém que exerceu esta função de copista; até mesmo porque se eu fosse tomar como certa a memória de um monge, eu estaria falando de um religioso que não preservou seus votos e passou seu código genético para frente, tudo bem, isto não era algo impossível de acontecer.
Deixando a romantização da vida clerical e voltando ao período de escrever na cozinha, eu permanecia ali até uma hora ou duas horas da manhã e depois ia dormir para acordar às cinco e meia, quando muito seis horas; deixava de dormir para escrever, não me dava cansaço, era o meu momento de viver, de criar, de liberar a imaginação, de colocar no papel um novo mundo ou dar continuidade ao já criado e meu amor pela arte da escrita vem justamente disto, de me sentir vivo e ter prazer em estar vivo.
E para você? O que é um ato de viver? O que te dá prazer em estar vivo?
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